quarta-feira, 7 de março de 2012

Os rumos do Movimento Estudantil na USP – Um balanço sobre a mobilização estudantil iniciada em 2011

Escrevemos este texto para compartilhar um pouco da avaliação que fizemos coletivamente no Universidade em Movimento sobre os acontecimentos do último ano (em especial dos últimos meses) na USP.
Apesar da USP sempre ter tido problemas, o ano de 2011 teve suas peculiaridades, que se iniciaram na Universidade literalmente desde a chegada de Rodas à Reitoria, tendo sido eleito em segundo lugar na lista tríplice, algo que não ocorria desde a Ditadura Militar.

Rodas também conseguiu desarticular as categorias (estudantes, professores e funcionários) de maneira magistral, acabando com a paridade salarial entre categorias, dando bônus, e perseguindo politicamente os mais engajados. Rodas de fato administra a USP como se fosse sua fazenda, fazendo nela o que bem entende: constrói e demole prédios onde quer, permite a entrada da PM… Recentemente, ganhou da amicíssima revista Veja o título de “Xerifão da USP”. Aceitou o elogio: mandou colocar no site oficial da universidade.

Em resposta à ação violenta dos mais de 400 policiais na desocupação da reitoria – que pode ser encarada como um grande resumo da gestão truculenta, oligárquica e autoritária do Xerifão da USP -, o Movimento Estudantil (ME) deu sua resposta: uma greve, atos com 6 mil pessoas na rua, milhares presentes em diversas assembleias em muitos cursos, em diversos campi. A resposta foi um movimento que conseguiu se expandir para além da FFLCH, para além do Butantã. Afinal, apesar de a greve ter se concentrado basicamente na FFLCH, ECA e FAU, quase todos os cursos do Butantã realizaram debates sobre o assunto, assim como quase todos os campi da USP. Muita gente que estava alheia aos acontecimentos começou a se envolver e participar dos debates e atos. Mesmo aqueles que não chegaram a participar, seja de dentro ou de fora da universidade, passaram a olhar para o ME da USP, para o bem o para o mal.


Este, no nosso balanço, é o principal aspecto positivo dos últimos meses: o movimento aumentou. Isso é importante justamente porque é no número de pessoas que conseguimos envolver que reside a força do movimento estudantil. Quanto mais gente participando e apoiando, mais força temos.

Porém, mesmo crescendo, o movimento vem sofrendo derrotas, e muito sérias. A prisão de 73 estudantes na reintegração de posse da reitoria, a expulsão de outros 6, o processo de reintegração de posse da moradia retomada e do espaço de vivência do DCE são ofensivas concretas da reitoria no sentido de criminalizar e coibir as ações dos estudantes, e ela não tem recuado.

A reitoria atacou em período de férias, quando o movimento naturalmente tem dificuldade em dar respostas, mas não é esse o motivo que explica estarmos sofrendo derrotas. A mais brutal de todas, por exemplo, a prisão dos 73 na ocupação da reitoria, ocorreu não só enquanto estávamos em aulas, mas no meio de todo esse processo de mobilização. Julgamos de primeira importância termos isso claro: não conseguimos em nenhum momento fazer com que a reitoria recuasse. Pelo contrário, as medidas de repressão têm se intensificado, e de uma forma que há muitos anos não acontecia.

É preciso lembrar, ainda, que o quadro que enfrentamos na USP não está desconectado do resto da sociedade: o governo paulista, que através de seu reitor coloca 400 policiais e cavalaria para resolver problemas internos da universidade, é o mesmo que leva a cabo a política higienista na Cracolândia e a reintegração de posse do Pinheirinho, com 2 mil policiais, que resultou até em moradores mortos. Os problemas de moradia, saúde pública e ensino, que a princípio são de responsabilidade do Estado, são todos tratados de uma só forma por Alckmin e seus partidários: como caso de polícia.

O precedente que as ações aqui na USP abrem para que as punições e perseguições aos movimentos das demais universidades no Brasil sejam disseminadas e banalizadas é gravíssimo para o Movimento Estudantil, e devemos ter plena noção disso. O respaldo que isso muitas vezes tem na opinião pública, com ajuda de uma mídia que tem lado, torna a situação ainda mais preocupante.

Mas por que, se conseguimos incorporar tantos estudantes, continuamos a ser atacados e a sofrer derrotas? Além da ação da reitoria e do governo estadual, do apoio midiático com que contam etc., é necessário também entendermos que erros graves que permeiam o próprio movimento nos impedem de avançar.

Problemas gerais do movimento e a polarização

Muitos problemas estão presentes no ME da USP: extremo clima de beligerância entre os setores, rixas, denuncismo, autoproclamação etc. A priorização, por parte de muitos, da autoconstrução de suas organizações em detrimento da construção do movimento leva à exaltação das disputas internas e afasta muitos estudantes das assembleias e outros espaços do movimento. Isso acaba sendo um tiro no nosso próprio pé, pois quem ganha com essas atitudes é a direita, a reitoria e o governo do Estado, que nos querem enfraquecidos. Esses são, portanto, vícios que devem ser combatidos.

Mas as diferenças de concepção e opinião no como fazer as coisas existem, e isso é inevitável. E toda a mobilização e greve iniciadas no final de 2011 foram permeadas por uma polarização bastante clara, que correspondeu genericamente a dois setores: um que defendia as propostas aparentemente sempre mais radicais, como as ocupações, e outro que enxergava a necessidade de mais cautela para que fosse possível o diálogo com o restante dos estudantes e da sociedade. Embora não de forma mecânica – nem todos se encaixam, necessariamente, de um lado ou de outro –, essa divisão corresponde bem nitidamente a dois agrupamentos, que coincidem com duas chapas formadas para a eleição para o DCE: a chapa 27 de Outubro (composta por LER-QI, MNN, PCO, POR, Práxis e independentes), “mais radical” (tanto é que se autodenominam usando a data do confronto que deu início a toda a mobilização); e a Não Vou Me Adaptar (MES/Juntos!, CSOL/Barricadas e Rosa do Povo/Domínio Público, que são setores da até então gestão do DCE, mais PSTU e independentes), os “mais moderados”.

O setormoderado

Os setores correspondentes à Não Vou Me Adaptar apresentaram propostas importantes, como a proposição do plano alternativo de segurança. Já que a justificativa da reitoria para colocar a PM no campus era a falta de segurança, entrar neste debate significava mostrar que havia outras formas reais de deixar o campus seguro, e que a presença da PM significava a intenção de tratar os conflitos políticos internos da universidade como caso de polícia. Esta pauta, proposta pela Não Vou Me Adaptar, era, portanto, uma importante forma de dialogar com os estudantes, que poderiam estar convencidos da presença da PM no campus pelo argumento da segurança, e ganhá-los para o nosso lado.

Entretanto, esses setores entraram em choque com boa parte dos estudantes envolvidos nas mobilizações, radicalizados pela situação (PM no campus e extremo autoritarismo da reitoria), e que passaram a enxergar o DCE, no qual o setor em questão estava identificado, como inimigo. A cautela – a objeção às formas diretas de luta, como as ocupações – passou a se confundir com imobilismo. E para isso o outro setor, o 27 de Outubro, também contribuiu: tratou de denunciá-los e de acusá-los de “traidores do movimento” desde o início, inclusive de formas caluniosas, como com a história de que “o DCE entregou os estudantes [pegos fumando maconha] para o camburão da polícia” (veja a nota de esclarecimento dos três estudantes  envolvidos). Chegaram a afirmar que o DCE, PSOL e PSTU estavam do lado da reitoria, do governo do PSDB e da PM – o que, para dizer o mínimo, não está lá muito próximo da realidade.

Mas o fato é que a pecha de “traidores do movimento” pegou entre muita gente. Por que isso ocorreu? Cabe aqui um uma observação: neste ano, em que a PM entrou de vez no campus, o autoritarismo da reitoria, através das mais diversas medidas, não tem precedentes. A conjuntura da USP em 2011 requeria uma resposta radicalizada do movimento. E ela ocorreu, com ou sem a gestão do DCE.

Ao contrário disso, a gestão de 2011 realmente nada ou muito pouco fez em relação à construção da luta contra a política e o autoritarismo da reitoria. Ao longo do ano, realizou muito pouco trabalho de articulação com os Centros Acadêmicos, base da organização do movimento, não esteve presente na organização do Encontro de Centros Acadêmicos, nem no I Encontro de Mulheres da USP (dos quais tampouco participaram os setores “radicais”, por não serem ações diretas). E, principalmente no segundo semestre, optou por construir pautas que diziam respeito muito mais aos grupos representados na gestão – alguém lembra do “15-O” e o “Fora Ricardo Teixeira”? – do que a construção da luta contra as ações da reitoria, que era o que do movimento precisava naquele momento.

Assim, quando três estudantes foram pegos pela polícia fumando maconha e um enorme protesto dos estudantes contra a PM e a política autoritária da reitoria foi desencadeado, a gestão do DCE não havia contribuído em praticamente nada nessa discussão e tampouco era referência para os estudantes. Com uma postura moderada quando a situação exigia radicalidade, e em choque com uma base radicalizada, não foi tão difícil colocar-lhes a pecha de “traidores do movimento”. Erro tático: ou a Não Vou Me Adaptar não soube compreender o quão latente era o sentimento anti-reitoria entre os estudantes e que o momento pedia pela radicalização (o que, convenhamos, não era tão difícil de captar), ou estava preocupada demais com outros assuntos, como a autoconstrução de seus grupos e o calendário eleitoral que se aproximava.

Essa é a lógica que tem predominado nos últimos anos, de conquista das entidades voltada para a autoconstrução dos grupos que estão nela. Esse foi o motivo básico pelo qual saímos do grupo da última gestão (muitos de nós defendiam que a pauta prioritária do DCE para este ano fosse, desde o início, o Fora Rodas, e não o 15-Oou Fora Ricardo Teixeira) para formar o Universidade em Movimento. E é por isso que os estudantes não têm enxergado as entidades como referência do movimento. Ao contrário, as entidades têm sido vistas cada vez mais como inimigas do movimento. Pensamos que isso deve ser seriamente revisto por aqueles que atuam no movimento estudantil da USP, e os setores da Não Vou Me Adaptar, a nosso ver, definitivamente não têm compreendido a importância que tem uma entidade como o DCE enquanto articuladora e unificadora dos estudantes.

Ao DCE cabe articular os Centros Acadêmicos, que têm o contato direto com a base e são os organizadores e os alicerces do movimento cotidiano, bem como se aproximar dos demais setores, como o Sintusp, a Moradia Retomada etc (por mais que se tenha diferenças com eles). Todos os setores que estão em movimento devem tomar parte na sua direção. Menos fragmentados, ficamos muito mais fortes, e não se trata de romantismo. O que não é possível é que apenas um grupo sozinho dirija o movimento, O desafio é conseguirmos criar uma forma de dirigir o movimento que seja aberta e democrática. Que as divergẽncias, que existem, sejam expostas, respeitadas e discutidas, mas principalmente, que na hora da ação tenhamos unidade, para que não nos falte força. A isso chamamos de direção coletiva.

O outro grupo (PSTU), que, junto a estes setores da antiga gestão a que nos referimos (MES/Juntos!, CSOL/Barricadas e Rosa do Povo/Domínio Público), compõe agora a Não Vou Me Adaptar!, também não foge disso. Sua gestão em 2009 (Nada Será Como Antes) se caracterizou basicamente pela construção da ANEL e o negligenciamento das necessidades do movimento – não realização do X Congresso dos estudantes, sem falar na retirada da gestão em plena greve no Butantã para o congresso de fundação da ANEL.

Até semanas antes das inscrições de chapa, as duas correntes (MES e PSTU) viam-se como inimigos absolutos no movimento estudantil da USP, e ninguém esperava que viessem a compor uma mesma chapa para o DCE. Com a justificativa de enfrentar a direita nas urnas, empreendem uma junção tão artificial que era inimaginável há pouquíssimo tempo para seus próprios militantes. O movimento precisa de unidade sim, mas unidade efetiva, no dia-a-dia (Leia nossa resposta ao “chamado de unidade” que nos foi feito pelos grupos que compõem a Não Vou Me Adaptar!). Infelizmente, nada nos faz crer que essa “unidade” é para exercerem uma “direção mais coletiva” do movimento. É uma unidade meramente eleitoral, entre quem não quer por nada sair do aparelho e quem quer por tudo nele estar, e que não vem acompanhada da necessária mudança na prática de fazer movimento. Em 2010, por exemplo, digladiaram-se na eleição e por 50 votos a Reconquista, a chapa da direita, não ganhou. Definitivamente, não é a reprodução dos vícios levada às últimas consequências o que o movimento precisa para se fortalecer e combater a direita.
É com muita franqueza que fazemos essas críticas. Mas são críticas que vem de reflexões sobre problemas reais e latentes que existem no movimento, e que portanto precisam ser colocadas, sobretudo pela preocupação que tais problemas nos causam.

Afirmamos que são preocupações pois as consequências que o vazio político deixado por uma política que prioriza a autoconstrução dos grupos e não o fortalecimento do ME, é um movimento rachado e um crescente rechaço às entidades, aos partidos de esquerda e a qualquer forma de organização. Este vazio político é ocupado tanto pela direita quanto por setores inconsequentes do movimento e que acabam ditando táticas impensadas.

O setorradicalizado

Do outro lado da moeda, vemos predominar uma ideia de movimento que preza sempre pela ação aparentemente mais radical, como se a ação direta fosse nosso único instrumento capaz de levar adiante a luta contra a política da reitoria. Há aí um erro grave: nem a ação direta é o único instrumento capaz de fazê-lo, nem tampouco deve ser encarada sempre como um erro tático.

Nesse setor se insere com peso fundamental a chapa 27 de Outubro. Uma das coisas que tal setor tem feito é colocar os estudantes contra suas entidades representativas, principalmente o DCE. Além da calúnia de que ele “entregou os estudantes para o camburão da polícia”, deslegitimaram as entidades estudantis de diversas formas: barrando a participação de estudantes diretores de Centros Acadêmicos ou do DCE em espaços do movimento (como nas comissões da ocupação da administração da FFLCH), com gritos, a todo momento, de “Fora DCE!”, ou com as repetidas solicitações de mudar as mesas de assembleias gerais e de curso e de dissolução das entidades e sua substituição pelos delegados do Comando de Greve – ainda que essa proposição nem sempre fosse feita de maneira clara.

É certo que as últimas gestões do DCE pouco têm contribuído para que os estudantes tenham a entidade como referência, como já dissemos, e daí o sentimento anti-DCE ter prosperado facilmente nos últimos tempos. Entretanto, o rechaço ao DCE e às demais entidades é ruim para o movimento, pois nos divide e nos enfraquece. As entidades são instrumentos importantes de auto-organização independente dos estudantes. Auto-organização, sim, uma vez que são estudantes eleitos por estudantes, sem interferência de reitoria, professores ou do que quer que seja. Por isso, as entidades estudantis são conquistas históricas dos que lutam. A organização nos dá força, nos unifica, e seu enfraquecimento só é bom para a reitoria e para o governo estadual.

É importante também observarmos o papel que tem cumprido o Comando de Greve. Ele pode e deve cumprir importante papel em momentos de plena mobilização, servindo de instrumento para a execução de tarefas quando há grande movimento. Entretanto, na prática ele tem sido usado como tentativa de substituir as entidades estudantis. E isso acontece quando se decide, por exemplo, que a Calourada Unificada seja realizada pelo Comando de Greve e não pelos Centros Acadêmicos. Era importantíssimo que fossem esses últimos que realizassem a calourada conjuntamente, pois isso fortalece a organicidade entre os movimentos dos cursos e o movimento geral, cria referência das entidades estudantis entre os calouros, integra os diversos campi da capital e, principalmente, do interior, que também têm estudantes que fazem movimento, mas não estão integrados num comando de greve que é demasiado centrado no Butantã.

Aproveitando-se de um problema do movimento – a deslegitimação das entidades – e alimentando-o, o Comando de Greve autonomizou-se, adquiriu uma dinâmica interna própria semelhante à de uma assembleia, com pouco diálogo interno e votações sempre polarizadas, com ligeira vantagem para os setores identificados com a 27 de Outubro. Assim, a tentativa de substituir as entidades pelo Comando coincide com o intuito por parte deste setor de incidir mais nas decisões e na direção do ME e alimentar uma ideia de movimento no qual somente os “estudantes mobilizados” devem ser representados. Diversas vezes ouvimos a defesa de que “o comando representa os estudantes mobilizados”. Ou seja, não querem que o movimento busque representar todos os estudantes, mas apenas os “mobilizados” – é a concepção que compreende que a vanguarda, setor “mais avançado” do movimento, deve “puxar” ou “rebocar” a base, e não permitir que o setor “mais atrasado” (direção burocratizada – no caso, as gestões das entidades) dirija o movimento.
Outro ponto importante diz respeito aos golpes que sofremos por parte da reitoria: prisões, reintegrações de posse, expulsões etc.. Todas essas ações ocorreram onde o movimento estava mais fragilizado: ou isolado, ou rachado. E quais foram essas ações?

Uma delas foi a ocupação da reitoria. É claro que era justo ocupar a reitoria, pois o autoritarismo com que a reitoria vinha e vem implementando suas medidas requeria que tomássemos medidas igualmente radicais. O problema é que, no momento em que a ocupação ocorreu, o movimento estava dividido ao meio. A ocupação já nasceu rachada, portanto não havia sequer possibilidade de ser um movimento unificado de todos os estudantes, pois começou já sem o apoio de metade dos que estavam na assembleia que a precedeu. Independente do mérito das questões daquele momento (se devíamos ou não votar a ocupação mesmo com o horário, se a assembleia devia ter sido encerrada daquela forma etc.), o importante é entender que aquele foi o auge da polarização entre dois lados apontados, onde a ausência de diálogo entre nós atingiu o ápice e uma parte via a outra com – não é exagerado dizer – um ódio assombroso. Ocupação de reitoria rachada, no momento de maior divisão e fragilidade do movimento, é prato cheio para a ofensiva da reitoria e do que há de mais conservador na sociedade. Resultado: prisão de 73 estudantes que estavam na ocupação, e, por parte da mídia, um tratamento tão agressivo quanto a ação policial.

Naquele momento, apoiamos a ocupação da reitoria, pois ela só ocorreu porque não há espaços nessa universidade para que os estudantes sejam ouvidos e por isso somos obrigados a gritar para que nos ouçam [leia nossa nota sobre a ocupação]. Não havia como ser diferente. Internamente, entretanto, criticamos a irresponsabilidade de setores como o 27 de Outubro que, desde o início, se esforçaram em estimular o clima de beligerância interna a que chegamos, onde um setor dos estudantes enxerga o outro praticamente como seu pior inimigo, culminando com a atitude inconsequente de realizar uma ocupação rachada. Reparem, achamos que, não só nesse episódio, mas durante todo o processo, houve erros graves de ambos os “lados”. E esse que acabamos de apontar é um deles.

Assim, outro exemplo de ações do movimento que ocorrem ignorando-se completamente a conquista do apoio da maioria e a coesão entre os estudantes diz respeito à Moradia Retomada (ocupação da Coseas), em função da qual 6 estudantes foram expulsos em dezembro e que sofreu reintegração de posse em 19 de fevereiro deste ano, com o saldo de mais 12 presos, entre eles uma garota grávida. Desde o início ela se tornou um movimento isolado inclusive entre os estudantes do próprio CRUSP. A pauta da moradia e da assistência estudantil é incontestavelmente justa e latente dentre aqueles estudantes. Se é assim, porque são tão isolados até no CRUSP, a ponto de na penúltima eleição da Associação de Moradores ter sido eleita uma gestão que se dizia de direita e que era totalmente desconhecida até então? Seria porque os moradores do CRUSP são de direita? Não! Mas sim porque não queriam de jeito nenhum o grupo da Moradia Retomada novamente na gestão. E por que isso? Porque não há preocupação, por parte desse grupo, em se obter o apoio da maioria. Essa é uma característica de muitos setores do movimento estudantil da USP, setores que têm tido ampla reverberação nas mobilizações desde outubro, e por isso atentamos para esta preocupação.

Temos que voltar a ter como objetivo conquistar o apoio da maioria. Justamente nos momentos em que o movimento menos se pauta por isso, é que sofremos as piores derrotas.

E nós, onde ficamos nisso?

Cabe aqui também fazermos uma autocrítica de nossa atuação. Estivemos presentes e ao máximo atuantes em todas as assembléias gerais, nas assembléias de cursos e campi onde nos encontramos, no comando de greve. Entretanto julgamos que na prática ainda não conseguimos romper a polarização que foi dominante (e provavelmente ainda é) durante o processo. Somos um grupo novo, formado no final do ano passado (às vésperas do início de toda essa mobilização) por setores e indivíduos descontentes com a forma predominante de como se vinha fazendo movimento estudantil na USP, que se juntaram pra conseguir colocar a sua opinião no movimento. Com todas as limitações que a realidade nos impõe, num movimento altamente polarizado e hostil, é isso o que temos tentado fazer.

Um dos momentos em que nos posicionamos claramente foi na decisão da última assembléia do ano, que deliberou a continuidade da greve durante as férias. Fomos contra a proposta porque é no mínimo duvidoso a viabilidade de conseguirmos efetivar uma greve em início de ano, com calouros que chegam e, enquanto tais, querem conhecer o mundo acadêmico no qual entram. E, mesmo que façamos uma calourada muito boa e que convençamos muita gente a respeito dos desmandos da reitoria, entendemos que empurrar uma greve no início do ano pode nos fazer atrair, desnecessariamente, a antipatia de um sem-número de outros estudantes (que estão entrando agora e aqui vão permanecer mais 4, 5 anos) com o movimento.

Pensamos que uma boa forma de conseguirmos retomar o movimento e fortalecê-lo é fazermos dias inteiros de paralisação em toda a USP. Conseguríamos efetivar isso muito mais do que uma greve de início de ano e daríamos a possibilidade de que outros campi (e não só o Butantã) também conseguissem fazê-lo (São Carlos, por exemplo, realizou paralisações durante as mobilizações do ano passado).

Os desafios do movimento para 2012

O movimento já demonstrou que pode ter muita força. Mas não demonstrou saber usá-la de forma a obter vitórias. É empolgante assistir a assembleias com 3 mil estudantes e grandes atos, ver que ainda há muita capacidade de indignação dos estudantes, mas de nada adianta nosso movimento se os únicos resultados concretos que obtemos são prisões, expulsões e um movimento cada vez mais dividido internamente, onde um lado enxerga o outro literalmente como inimigo.
 
Podemos avançar, temos condições reais de fazê-lo. Mas para isso é necessário que utilizemos as táticas corretas da forma correta. Que nos utilizemos tanto das ações diretas quanto das “indiretas”, que visam o diálogo e o convencimento. Que quando façamos uma ocupação, por exemplo, estejamos coesos, com “força máxima”, e principalmente buscando o apoio da maioria dos estudantes e do máximo possível da sociedade (essa preocupação também deve existir). Somente se tivermos como objetivo a conquista do apoio da maioria é que conseguiremos tensionar a reitoria e fazê-la recuar.

E, para nós, mais do que uma greve forte, é preciso que o movimento na USP esteja forte. E movimento forte é movimento com participação de muita gente, envolvida nos mais diversos tipos de ações. Precisamos ampliar o contato para além dos muros da Universidade. Ações como a do Fórum de Extensão (que pintou o muro que divide a Cidade Universitária da São Remo) devem ser construídas e fortalecidas. O 8 de Março, na primeira semana após a calourada, dia histórico da luta das mulheres, também é um bom momento para nos desafiarmos a tocar pautas que dialoguem para além da USP, e para mostrar que temos muitas pautas em comum com outros movimentos.

Nesse mesmo sentido, temos de entender que a luta dos estudantes é a mesma luta de diversos outros setores da sociedade. Devemos estar articulados com outros movimentos, e fazer ações conjuntamente. Assim, temos mais força para avançar. Dentro dessas articulações é prioridade que estejamos ao lado do movimento negro na luta por cotas e por acesso na USP, para que o povo esteja na universidade e esta seja mais diversa e democrática.

Precisamos fortalecer o vínculo entre as categorias, tomar a iniciativa de dialogar mais e atuar conjuntamente com trabalhadores e docentes.

É necessário fortalecer o movimento em toda a USP, não no Butantã, não na FFLCH. O movimento deve acontecer em todos os lugares – não com figuras iluminadas que saem da FFLCH para levar o conhecimento para os outros – mas a partir de cada realidade local, no esforço de construir identidade e solidariedade entre nós. Isso é cotidiano e envolve uma preocupação igualmente importante e que vai além dessa maneira de fazer movimento com que muitos de nós estamos acostumados.

Assim, a melhor tática para o início do ano será centrar nossas forças na construção de uma maioria real: é preciso que o movimento esteja com o grosso dos estudantes, nos cursos, realizando debates, produzindo materiais, aumentando a circulação de informações, para dentro e para fora da Universidade. E também realizando grandes assembleias nos cursos, para que o movimento seja, de fato, dirigido pela base, de modo que consigamos criar uma força política real, capaz de obter conquistas.


Publicado originalmente no blog UNIVERSIDADE EM MOVIMENTO

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